Goiânia, 14 de agosto de 2008

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Abrir os olhos para a água

Washington Novaes

Que vai acontecer no Brasil, na área dos recursos hídricos, com as mudanças climáticas já em curso? Que se pode fazer para que um país com 12% das águas superficiais do Planeta não venha a enfrentar crises nessa área? Como evitar que as grandes cidades brasileiras continuem a perder 40% das águas que saem das estações de tratamento e não chegam aos usuários, por causa de vazamentos, furos e outros problemas nas redes de distribuição, que não têm programas de conservação? Como se fará para eliminar o atual déficit de redes de abastecimento de água e de coleta de esgotos, além de estações de tratamento desses esgotos no País? Como evitar desperdícios e maus usos na agropecuária? São esses alguns dos temas do utilíssimo dossiê sobre água de que trata o número 63 da revista do Instituto de Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo. Deveria ser leitura obrigatória para governantes, legisladores, políticos, empresários, professores e quem mais tenha responsabilidade na gestão dos recursos nessa área, cada vez mais difícil, em meio à crise pela qual passa o mundo.

O prof. José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos, um dos autores do ensaio, manifesta sua preocupação com os usos excessivos de água na irrigação, inclusive de águas subterrâneas – que vem provocando “drástica diminuição no volume dos aqüíferos, aumento nos custos de extração e de irrigação”. E pode agravar-se, com a tendência atual de transferir investimentos da área financeira (com as crises em várias partes do mundo) para as commodities e a produção de alimentos. Também o preocupam a eutrofização de lagos, represas e rios, por uso excessivo de fertilizantes na agricultura, e a contaminação “agravada por salinização e descontrole nos usos do solo, interferindo com os ciclos do fósforo, nitrogênio e metais pesados”. Seria necessária, diz ele, “melhor governança das bacias hidrográficas” e cobrança por todos os usos da água, além de “valoração dos serviços dos ecossistemas aquáticos”. Como seria fundamental promover estudos estratégicos sobre recursos hídricos e energia, economia, saúde humana e mudanças globais, “com a finalidade de promover visões e cenários de longo prazo que estimulem políticas públicas consolidadas”.

Já o prof. José Antônio Marengo – autor, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), dos cenários para o clima no Brasil nas próximas décadas – começa lembrando a privilegiada posição do País, com 12% do fluxo hídrico superficial do Planeta, que chega a 18% “se forem levadas em conta as vazões oriundas em território estrangeiro e que ingressam no País” (Amazônia e bacia Paraguai-Paraná). Se forem somadas estas, haverá uma disponibilidade de 267 mil metros cúbicos por segundo. Mas é uma disponibilidade muito desigual, porque 74% do fluxo estão na Amazônia, com menos de 20% da população. No Nordeste Oriental, a disponibilidade é de apenas 1.200 m3 por habitante/ano.

Nos cenários que traça, o prof. Marengo aponta a Amazônia e o Nordeste como as áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas e suas repercussões nos recursos hídricos. A possibilidade é de que as chuvas se reduzam em até 20% ao longo do século. Os glaciares andinos “estão retrocedendo” e isso afetará o fluxo para a Amazônia, pois neles se origina parte da água que corre para a planície amazônica. “A disponibilidade de água destinada ao consumo e à geração de eletricidade já está comprometida e o problema se agravará.” Na bacia do Prata, as chuvas poderão aumentar em até 30%. No Nordeste, poderão ser de menor volume, agravando a situação em muitas áreas, pois em algumas a situação já é crítica, como em Pernambuco. “Mais de 70% das cidades do semi-árido nordestino com população acima de 5 mil habitantes enfrentarão crise no abastecimento de água para o consumo humano até 2025 (...) Problemas de abastecimento deverão atingir cerca de 41 milhões de habitantes”. Os depósitos de água subterrânea do Nordeste brasileiro poderão receber menos 70% de recarga. “O semi-árido nordestino caminharia para a desertificação”, afirma o ensaio.

Na bacia do Prata, já está sendo observado um aumento de até 28% na vazão a partir de 1970, por causa de desmatamento e mudanças no uso da terra, que reduzem a retenção de água e contribuem para a depleção no subsolo. Mas alguns estudos também apontam aumento no volume de chuvas – que pode compensar. Centro-Oeste e Sudeste, segundo o prof. Marengo “são regiões altamente vulneráveis, pela dependência de energia elétrica e pela presença ou ausência de água. Nessas regiões, as mudanças de clima podem acrescentar-se ao risco imposto pela crescente população, industrialização e pelas mudanças no uso da terra associadas à agricultura e à pecuária”. Para o Centro-Oeste, os cenários traçados no Inpe admitem um aumento da temperatura de até 3 a 4 graus ao longo deste século– o que terá profundas implicações nos plantios e em sua produtividade (a Embrapa Cerrado já vem experimentando variedades de feijão, milho e soja mais resistentes a temperaturas mais altas).

Segundo o autor, “as evidências científicas apontam para o fato de que as mudanças climáticas representam um sério risco para os recursos de água no Brasil”. Seria conveniente ouvir o alerta.

Washington Novaes é jornalista.

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