 Abrir os olhos para a água
Washington Novaes
Que vai acontecer no Brasil, na área dos recursos
hídricos, com as mudanças climáticas já em curso? Que se pode fazer para que um país
com 12% das águas superficiais do Planeta não venha a enfrentar crises nessa área? Como
evitar que as grandes cidades brasileiras continuem a perder 40% das águas que saem das
estações de tratamento e não chegam aos usuários, por causa de vazamentos, furos e
outros problemas nas redes de distribuição, que não têm programas de conservação?
Como se fará para eliminar o atual déficit de redes de abastecimento de água e de
coleta de esgotos, além de estações de tratamento desses esgotos no País? Como evitar
desperdícios e maus usos na agropecuária? São esses alguns dos temas do utilíssimo
dossiê sobre água de que trata o número 63 da revista do Instituto de Estudos
Avançados, da Universidade de São Paulo. Deveria ser leitura obrigatória para
governantes, legisladores, políticos, empresários, professores e quem mais tenha
responsabilidade na gestão dos recursos nessa área, cada vez mais difícil, em meio à
crise pela qual passa o mundo.
O prof. José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de
Ecologia de São Carlos, um dos autores do ensaio, manifesta sua preocupação com os usos
excessivos de água na irrigação, inclusive de águas subterrâneas que vem
provocando drástica diminuição no volume dos aqüíferos, aumento nos custos de
extração e de irrigação. E pode agravar-se, com a tendência atual de transferir
investimentos da área financeira (com as crises em várias partes do mundo) para as
commodities e a produção de alimentos. Também o preocupam a eutrofização de lagos,
represas e rios, por uso excessivo de fertilizantes na agricultura, e a contaminação
agravada por salinização e descontrole nos usos do solo, interferindo com os
ciclos do fósforo, nitrogênio e metais pesados. Seria necessária, diz ele,
melhor governança das bacias hidrográficas e cobrança por todos os usos da
água, além de valoração dos serviços dos ecossistemas aquáticos. Como
seria fundamental promover estudos estratégicos sobre recursos hídricos e energia,
economia, saúde humana e mudanças globais, com a finalidade de promover visões e
cenários de longo prazo que estimulem políticas públicas consolidadas.
Já o prof. José Antônio Marengo autor, no Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), dos cenários para o clima no Brasil nas próximas
décadas começa lembrando a privilegiada posição do País, com 12% do fluxo
hídrico superficial do Planeta, que chega a 18% se forem levadas em conta as
vazões oriundas em território estrangeiro e que ingressam no País (Amazônia e
bacia Paraguai-Paraná). Se forem somadas estas, haverá uma disponibilidade de 267 mil
metros cúbicos por segundo. Mas é uma disponibilidade muito desigual, porque 74% do
fluxo estão na Amazônia, com menos de 20% da população. No Nordeste Oriental, a
disponibilidade é de apenas 1.200 m3 por habitante/ano.
Nos cenários que traça, o prof. Marengo aponta a Amazônia
e o Nordeste como as áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas e suas
repercussões nos recursos hídricos. A possibilidade é de que as chuvas se reduzam em
até 20% ao longo do século. Os glaciares andinos estão retrocedendo e isso
afetará o fluxo para a Amazônia, pois neles se origina parte da água que corre para a
planície amazônica. A disponibilidade de água destinada ao consumo e à geração
de eletricidade já está comprometida e o problema se agravará. Na bacia do Prata,
as chuvas poderão aumentar em até 30%. No Nordeste, poderão ser de menor volume,
agravando a situação em muitas áreas, pois em algumas a situação já é crítica,
como em Pernambuco. Mais de 70% das cidades do semi-árido nordestino com
população acima de 5 mil habitantes enfrentarão crise no abastecimento de água para o
consumo humano até 2025 (...) Problemas de abastecimento deverão atingir cerca de 41
milhões de habitantes. Os depósitos de água subterrânea do Nordeste brasileiro
poderão receber menos 70% de recarga. O semi-árido nordestino caminharia para a
desertificação, afirma o ensaio.
Na bacia do Prata, já está sendo observado um aumento de
até 28% na vazão a partir de 1970, por causa de desmatamento e mudanças no uso da
terra, que reduzem a retenção de água e contribuem para a depleção no subsolo. Mas
alguns estudos também apontam aumento no volume de chuvas que pode compensar.
Centro-Oeste e Sudeste, segundo o prof. Marengo são regiões altamente
vulneráveis, pela dependência de energia elétrica e pela presença ou ausência de
água. Nessas regiões, as mudanças de clima podem acrescentar-se ao risco imposto pela
crescente população, industrialização e pelas mudanças no uso da terra associadas à
agricultura e à pecuária. Para o Centro-Oeste, os cenários traçados no Inpe
admitem um aumento da temperatura de até 3 a 4 graus ao longo deste século o que
terá profundas implicações nos plantios e em sua produtividade (a Embrapa Cerrado já
vem experimentando variedades de feijão, milho e soja mais resistentes a temperaturas
mais altas).
Segundo o autor, as evidências científicas apontam
para o fato de que as mudanças climáticas representam um sério risco para os recursos
de água no Brasil. Seria conveniente ouvir o alerta.
Washington Novaes é
jornalista.
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