 Reservas de conflitos
Henrique Duarte
Dizia-se, no passado, com natural ufanismo: A
Amazônia se faz nas patas dos bois. Esse era o lema do antigo banco de
desenvolvimento regional, no intuito de atrair para a região investimentos produtivos, em
especial na agropecuária. Era, ainda, um modo de promover o povoamento da área,
teoricamente ameaçada de invasão estrangeira. E os bois deram início à conquista
daquela região, com levas de sulistas e paulistas ali aportando com suas máquinas
agrícolas e muita disposição de criar a nova realidade social e econômica.
Os ufanistas que antes defendiam o povoamento mudaram de
lado. Estão hoje no governo e pregam exatamente o oposto. Para eles a Amazônia deve
voltar a ser um território dominado por índios que agem em conluio com ONGs.
A reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, expõe
não só um conflito momentâneo. Pelas dimensões exageradas da demarcação, dá sinais
de que o Brasil possa ser, pela primeira vez, dividido em mais de uma única nação. O
governo elevou de 3.500 km2, conforme previsão original de 1977, para os atuais 17 mil
km2 o tamanho da reserva (e de terras contínuas, onde estão milhares de famílias de
produtores que devem ser expulsos do lugar).
Tudo para grupos de poucos índios. Inábeis negociadores de
madeira, ouro, pedras preciosas e minerais, passam a deter praticamente todas as riquezas
do subsolo de Roraima e viram alvos de interesses internacionais fincados em ONGs.
A política indigenista do governo federal encontra
oposição no Exército, instituição que mais conhece a Amazônia, desde os tempos do
engenheiro militar Cândido Mariano da Silva Rondon, que cruzou a região implantando fios
telefônicos, mapeando áreas, rios e montanhas. O general Augusto Heleno Pereira,
comandante militar da Amazônia, em palestra no Clube Militar do Rio de Janeiro chamou a
política do governo de caótica, lamentável. Critica a demarcação de
grandes reservas nas fronteiras, o que, diz, representa perda de soberania nacional.
O caso da reserva Raposa Serra do Sol poderá ficar conhecido
como a Batalha dos Arrozeiros, uma ignomínia, visto que no Sul, em áreas altamente
povoadas como São Paulo, tribos remanescentes não são assistidas pela Funai como
deveriam. Por que os índios amazônicos valem muito mais que os tupis e guaranis? E
tantas outras tribos? O governo faz de uns latifundiários, donos de minerais e madeiras
que valem bilhões, e de outros, meros instrumentos garantidores de empregos a
funcionários contratados para tomar conta deles, por serem tutelados.
Henrique Duarte é
jornalista.
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