Goiânia, 12 de maio de 2008

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Cidadão do mundo

URSULINO LEÃO

Quem vive no século 21, só não se torna cidadão do mundo se recusar o título...

Eu o aceitei. Não pelas conseqüências que a integração das economias dos países desenvolvidos e/ou em desenvolvimento me acarreta. Nem graças ao surpreendente avanço dos meios de comunicação; muito menos por eu ter proporcionado inestimável benefício à humanidade...

Também não o sou por haver granjeado a feliz oportunidade (como lá dizem...) de conhecer, em diversas partes de nosso gostoso planeta, algumas dessas relíquias que representam fatos da História ou feitos do homem. Nem, outrossim, porque, todo dia, fico ciente das ocorrências funestas e festivas, alvissareiras e desastrosas que sucedem ao mundo, no exato momento em que se efetivam.

Sinto-me presença em quase todos os acontecimentos que abalam a humanidade: um temporal na Flórida (EUA) arranca telhas em minha casa da Fazenda São João; um avião que cai no Oriente Médio e mata centenas de passageiros me causa enorme amargura; os ensaios da torcida chinesa, tendentes a embelezar as Olimpíadas de Pequim, me proporcionam intensa alegria...

É, pois, como cidadão do mundo que espero se abram as asas da Liberdade sobre o povo cubano e que sua encantadora ilha, virando as páginas da longa duração do governo totalitário de Fidel Castro, se transforme logo numa república absolutamente democrática.

Ainda como cidadão do mundo, gostei da derrota de Hugo Chávez no referendo do ano passado (votei com a oposição...) e amei a recente independência da valente Kosovo.

E agora me vejo engajado nesse movimento humanitário que reclama a libertação da ex-candidata à Presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt. Sua esquálida figura, que aparece constantemente na mídia, me martiriza. Sua permanência num abominável cativeiro das Farc (dura mais de seis anos) é crime hediondo.

Cadê a ONU? Por que não aciona as forças da paz contra essa súcia de transgressores dos direitos humanos?

A hora das negociações já passou. A via dos apelos tem obtido apenas minguados sucessos. Chegou, portanto, a ocasião de sua autoridade irromper no pedaço com meios mais persuasivos...

Santo Deus, este vosso mundo, tão opulento e tão admirável, freqüentemente é tão entristecedor...

Talvez seja por isso que, de quando em quando, me advêm saudades amenas do mundo de minha infância em Crixás.

Compunha-se de realidades singelas: nossa casa, o Rio Vermelho, a loja de meu pai e assombrações nas noites escuras...

Então, um tanto acabrunhado, consulto meu mestre Omar Kháyyam que, de maneira exemplificativa, me fala:

“Esforço-me por acolher
sem espanto e sem cólera
tudo o que a
vida me oferece”.