Ricardo Rafael

Valdeci Gonçalves, o Socó, entrega folhetos na Praça do
Bandeirante, onde faz ponto todos os dias das 7 às 18 horas |
PELAS RUAS DA CIDADE
Plaqueiro já intermediou até compra de
aliança por casal gay
Casos de um comprador de ouro
Socó é plaqueiro, tipo
comum nas ruas do centro da capital. Ele é captador de compra de ouro
Almiro Marcos
Valdeci Gonçalves Lima, de 66 anos, mais conhecido como
Socó, observou a chegada de dois homens. Eles eram altos e fortes,
recorda-se. A dupla se aproximou de Valdeci, que vestia o tradicional colete amarelo com
as palavras: Compro Ouro, acompanhadas de outras informações, tais como
faz alianças e anéis. Os recém-chegados então perguntaram onde é que
funcionava o escritório. Conforme manda o ritual, o plaqueiro pediu para que o
acompanhassem. Todos entraram no elevador de um prédio na esquina das avenidas Goiás e
Anhanguera, no Centro de Goiânia.
Aqueles eram apenas mais dois clientes captados no dia. Mas
Valdeci achou que havia algo de diferente naquele caso. Normalmente não comenta nada com
os clientes, mas daquela vez perguntou se queriam vender ouro. Então eles me
disseram que queriam fazer alianças para os dois, que eram namorados e que queriam algo
mais sério, então iriam colocar alianças, relembra. Divertindo-se com a
lembrança do caso, o plaqueiro diz que apenas abriu a boca, arregalou os olhos e deu um
sorriso amarelo.
Quando começou a trabalhar na função, há três anos e
meio, Socó, como prefere ser chamado, ainda estranhava casos semelhantes. Mas logo se
acostumou. Já atendeu outros casais de homens e também de mulheres. Sabe, elas
normalmente são mais ciumentas. Mas a gente é muito profissional e não brinca com isso.
Qualquer um pra gente é considerado cliente, frisa.
Ele é um dos plaqueiros ou homens-placa que circulam pela
região central de Goiânia. Somente nas imediações da Praça do Bandeirante são mais
de 50. As figuras são semelhantes, quase sempre são homens de terceira idade trajando
coletes de cores berrantes (laranja ou amarela) e com bonés na cabeça. Isso é bom
para proteger do sol ou da chuva, que não perdoam ninguém, ensina Socó.
Muita gente passa por eles milhares de vezes por dia. Mas
poucos se dão conta da sua existência.
Só quem tem interesse no anúncio (no caso comprar ouro ou
fazer alianças) é que se aproxima dos plaqueiros. A ação é rápida e objetiva. A
pessoa chega e pergunta onde pode vender o ouro ou comprar as alianças. Quem nos
procura já sabe o que quer. O resto da negociação é feita com o escritório. A gente
só é captador, argumenta Socó.
Assim como ele, outros companheiros também buscam a função
como complemento da renda da aposentadoria. O que eu ganho como aposentado não dá
para viver. E isso aqui também é uma terapia para mim. Se ficar em casa parado, fico
maluco, comenta. Ele recebe em média R$ 90 por semana, trabalhando das 8 até as 17
horas.
De profissão, Socó por último era matambeiro. Isso
significa que eu trabalhava em frigorífico, descarnava as reses, explica. Mas,
antes disso, ele também foi lavrador e pedreiro. Com a aposentadoria, precisou arrumar um
novo ofício.
Ele já tinha passado milhares de vezes pelo Centro e nunca
havia notado a presença dos plaqueiros. Um dia, por acaso, observou aqueles homens
vestidos como placas. Buscou informações e se tornou um deles. Hoje é um dos mais
antigos da região. O pessoal tem uma grande rotatividade, mas não sei bem explicar
o porquê, afirma. De lá para cá viu muita coisa. Desde casais homossexuais até
homens querendo vender dentes de ouro e mulheres arrependidas querendo vender de volta a
aliança de noivado ou casamento feita no escritório.
Código de ética
Mesmo concorrentes, os plaqueiros parecem ter um código de ética silencioso entre eles.
Sempre se cumprimentam sorridentes e conversam animadamente. A escolha do
captador é deixada por conta do próprio cliente. Você não vê um dos
plaqueiros gritando que compra ouro ou tentando tomar o cliente do colega. A gente
se respeita. Todo mundo precisa trabalhar, justifica Socó.
Enquanto isso, na esquina uma senhora se aproxima de um
colega plaqueiro e mostra uma correntinha aparentemente de ouro. Quer vendê-la.Os dois
conversam e a mulher segue atrás do homem, desaparecendo na porta aberta de um prédio.
Socó observa a movimentação. A gente não fica um dia sem arrumar um cliente. É
sim um bom emprego, garante. |