Goiânia, 12 de maio de 2008

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Ricardo Rafael

Valdeci Gonçalves, o Socó, entrega folhetos na Praça do Bandeirante, onde faz ponto todos os dias das 7 às 18 horas

PELAS RUAS DA CIDADE

Plaqueiro já intermediou até compra de aliança por casal gay

Casos de um comprador de ouro

‘Socó’ é ‘plaqueiro’, tipo comum nas ruas do centro da capital. Ele é captador de compra de ouro

Almiro Marcos

Valdeci Gonçalves Lima, de 66 anos, mais conhecido como Socó, observou a chegada de dois homens. “Eles eram altos e fortes”, recorda-se. A dupla se aproximou de Valdeci, que vestia o tradicional colete amarelo com as palavras: ‘Compro Ouro’, acompanhadas de outras informações, tais como ‘faz alianças e anéis’. Os recém-chegados então perguntaram onde é que funcionava o escritório. Conforme manda o ritual, o plaqueiro pediu para que o acompanhassem. Todos entraram no elevador de um prédio na esquina das avenidas Goiás e Anhanguera, no Centro de Goiânia.

Aqueles eram apenas mais dois clientes captados no dia. Mas Valdeci achou que havia algo de diferente naquele caso. Normalmente não comenta nada com os clientes, mas daquela vez perguntou se queriam vender ouro. “Então eles me disseram que queriam fazer alianças para os dois, que eram namorados e que queriam algo mais sério, então iriam colocar alianças”, relembra. Divertindo-se com a lembrança do caso, o plaqueiro diz que apenas abriu a boca, arregalou os olhos e deu um sorriso amarelo.

Quando começou a trabalhar na função, há três anos e meio, Socó, como prefere ser chamado, ainda estranhava casos semelhantes. Mas logo se acostumou. Já atendeu outros casais de homens e também de mulheres. “Sabe, elas normalmente são mais ciumentas. Mas a gente é muito profissional e não brinca com isso. Qualquer um pra gente é considerado cliente”, frisa.

Ele é um dos plaqueiros ou homens-placa que circulam pela região central de Goiânia. Somente nas imediações da Praça do Bandeirante são mais de 50. As figuras são semelhantes, quase sempre são homens de terceira idade trajando coletes de cores berrantes (laranja ou amarela) e com bonés na cabeça. “Isso é bom para proteger do sol ou da chuva, que não perdoam ninguém”, ensina Socó.

Muita gente passa por eles milhares de vezes por dia. Mas poucos se dão conta da sua existência.

Só quem tem interesse no anúncio (no caso comprar ouro ou fazer alianças) é que se aproxima dos plaqueiros. A ação é rápida e objetiva. A pessoa chega e pergunta onde pode vender o ouro ou comprar as alianças. “Quem nos procura já sabe o que quer. O resto da negociação é feita com o escritório. A gente só é captador”, argumenta Socó.

Assim como ele, outros companheiros também buscam a função como complemento da renda da aposentadoria. “O que eu ganho como aposentado não dá para viver. E isso aqui também é uma terapia para mim. Se ficar em casa parado, fico maluco”, comenta. Ele recebe em média R$ 90 por semana, trabalhando das 8 até as 17 horas.

De profissão, Socó por último era matambeiro. “Isso significa que eu trabalhava em frigorífico, descarnava as reses”, explica. Mas, antes disso, ele também foi lavrador e pedreiro. Com a aposentadoria, precisou arrumar um novo ofício.

Ele já tinha passado milhares de vezes pelo Centro e nunca havia notado a presença dos plaqueiros. Um dia, por acaso, observou aqueles homens vestidos como placas. Buscou informações e se tornou um deles. Hoje é um dos mais antigos da região. “O pessoal tem uma grande rotatividade, mas não sei bem explicar o porquê”, afirma. De lá para cá viu muita coisa. Desde casais homossexuais até homens querendo vender dentes de ouro e mulheres arrependidas querendo vender de volta a aliança de noivado ou casamento feita no escritório.

Código de ética
Mesmo concorrentes, os plaqueiros parecem ter um código de ética silencioso entre eles. Sempre se cumprimentam sorridentes e conversam animadamente. A escolha do ‘captador’ é deixada por conta do próprio cliente. Você não vê um dos plaqueiros gritando que compra ouro ou tentando tomar o cliente do colega. “A gente se respeita. Todo mundo precisa trabalhar”, justifica Socó.

Enquanto isso, na esquina uma senhora se aproxima de um colega plaqueiro e mostra uma correntinha aparentemente de ouro. Quer vendê-la.Os dois conversam e a mulher segue atrás do homem, desaparecendo na porta aberta de um prédio. Socó observa a movimentação. “A gente não fica um dia sem arrumar um cliente. É sim um bom emprego”, garante.

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