Goiânia, 12 de agosto de 2008

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Fotos: Ricardo Rafael

Idalina Ribeiro (à esquerda), de 67 anos; Cláudia Borges, de 27, e Osvaldo, de 56: personagens de uma história que ser arrasta há mais de 20 anos

Origem do drama de 4 mil pessoas

Cartório concedeu certidões que possibilitaram o surgimento irregular de 3 loteamentos

Marília Assunção

Qual a origem de uma irregularidade que pode prejudicar 4 mil pessoas, onerar os cofres públicos em R$ 14 milhões (leia nesta página) e que vem prejudicando proprietários legais de um imóvel há mais de 20 anos? Quem acompanha o processo de reintegração de posse que tem de ser cumprida até dia 28 nos residenciais Serra das Brisas e Belo Horizonte, em Aparecida de Goiânia, já deve ter feito essa pergunta.

A irregularidade começou no Cartório de Registro de Imóveis de Aparecida. O cartório desrespeitou uma ordem judicial que proibia oneração ou alienação da área da fazenda Santo Antônio ou Olho D´ Água, onde hoje ficam os loteamentos, na GO-040.

A ordem foi obtida pelos proprietários, mas o cartório registrou indevidamente parte do imóvel e expediu certidões negativas de ônus do resto. Essas medidas permitiram que duas construtoras fizessem os empreendimentos, embora a Prefeitura de Aparecida também tenha errado consumando três loteamentos na área sob litígio (além do Serra das Brisas e do Belo Horizonte, o Araguaia).

A ação para que o cartório não tomasse medidas (registros e certidões) sobre a área data de 1979 e a notificação ao cartório é de de 30 de abril de 1980. O proprietário, José Agenor Lino Silva, já falecido, havia conseguido o seqüestro do imóvel contra o extinto Instituto de Desenvolvimento Agrário de Goiás (Idago), que doou áreas da fazenda a terceiros.


Confluência do Serra das Brisas, Belo Horizonte e Araguaia

A Justiça pretendia evitar o parcelamento ou venda do imóvel. Porém, a oficial responsável pelo cartório, Maria Elias de Melo, registrou parte da área, referente hoje ao loteamento Araguaia. Posteriormente, a família comprovou o domínio sobre o loteamento, em prejuízo da construtora Poligonal Construções Civis.

Por causa disso, foi feita queixa à Corredoria-Geral da Justiça e a Diretoria do Fórum de Aparecida iniciou uma investigação em 2006 contra o cartório, até hoje sem conclusão. Também foi movida contra a oficial uma ação de indenização, já parcialmente ganha no Tribunal de Justiça pela construtora. O juiz da 2ª Vara Cível de Aparecida, Vanderlei Caires Pinheiro, em sentença de janeiro de 2007, concordou com o pedido de indenização. O cartório recorreu, mas o caso ainda tramita.

A sentença inclui danos materiais e também morais. Nos pedidos, a Poligonal argumentava que o nome da empresa figurou como responsável por uma irregularidade que sustentava não ter praticado e que a mesma motivara até ações judiciais contra a construtora. A indenização por danos materiais foi estipulada em R$ 5,2 mil para cada um dos 39 lotes do Araguaia (mais de R$ 202 mil, sem atualizações e impostos) e a indenização por danos morais foi estipulada em R$ 70 mil.

Um dos oito herdeiros da propriedade, Luís Antônio Lino diz que a família também vai representar judicialmente contra o cartório. Neste caso, por causa de certidões negativas de ônus da área concedidas em favor da construtora a Gutemberg Caetano, já extinta. As certidões, segundo ele, possibilitaram que a outra empresa iniciasse os loteamentos Serra das Brisas e Belo Horizonte também nas terras embargadas. Apurações de responsabilidades de cartórios são acompanhadas pela corregedoria do Tribunal.

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