Goiânia, 11 de outubro de 2008

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Carta a Joaquim Maria

Carlos César Ferreira Ibiapino

Joaquim Maria (ou devo chamá-lo pelo famoso sobrenome?), já faz cem anos que nos deixaste, mas parece que foi ontem. Vivíssimo na mente daqueles que conhecem pelo menos um pouco de tua obra, pipocam homenagens de todos os lados neste teu centenário de morte. Nada mais justo. Não apenas porque és o maior prosador da literatura brasileira, mas também porque tua obra continua atual, desafiando críticos e leitores a compreendê-la em maior profundidade. Embora estejas agora do outro lado da vida, a perscrutar outros segredos do universo, resolvi enviar-te esta missiva para, quem sabe – caso resolvas responder-me –, revelares alguns segredos de um outro universo: o literário, que tão bem construíste.

Sinto-me acanhado diante de um bruxo que mostrou conhecer profundamente a palavra. Mas, sobretudo, a alma humana. E colocou-a na palma da mão, através da criação de tantas e tantas personagens que jamais conhecerão a morte. Neste início de conversa, apelo para um poeta da modernidade, que, cantando o cotidiano, disse: “Aqui na terra estão jogando futebol/ Tem muito samba/ Muito choro e rock’n roll/ Um dia chove noutro dia bate sol/ Mas o que eu quero lhe dizer/ É que a coisa aqui está preta...” . E o que é pior: pelo jeito, vai continuar assim por muito tempo. Era assim também no Rio de Janeiro do final do século 19, não era? Talvez, por isso, o tédio, o pessimismo e a ironia sejam, também, presença constante em tua obra.

Pouco aprendemos da filosofia do teu Quincas Borba. E o Humanitismo que dele emana prova apenas que continuamos os mesmos. A luta pelas batatas continua na economia, na política, na vida social, no consumismo desenfreado... E, por que não, na literatura também. Veja o caso do escritor Paulo Coelho. Acho que invejas o sucesso estrondoso dele, não? Enquanto isso, tiveste que comer o pão que o diabo amassou para, ainda em vida, pelo menos ter o talento reconhecido. Ele, ao contrário, nada de braçadas, vende milhões de livros, viaja o mundo inteiro, tornou-se um clássico (sic) . Tu, pobre Machado, nunca saíste do Rio de Janeiro. Ou melhor, saíste sim. Para dentro de ti mesmo, na aventura maior do ‘conhecer-se’. Tanto que, ao ler-te, cada vez mais conhecemos da alma humana.

Mas a verdade é que pouco aprendemos, também, do teu modo de encarar a realidade. Isso, claro, depois que paraste de flertar com o Romantismo, do qual disseste certa vez: “morreu porque era mortal.” E aí veio o melhor de tua produção: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro... Ainda assim, há aqueles – seria inveja? – que te acusam de ficar em cima do muro, em se tratando de política e outras questões relevantes de tua época. Sabemos hoje que não eras nenhum santo. Tanto que mataste o excelente crítico literário que havia em ti e que se propunha a criar um novo panorama cultural no País. O crítico severo se transformou em acadêmico sereno, principalmente após a fundação da Academia Brasileira de Letras. Mas nem isso rouba-te as honras e os méritos.

E, afinal, o que tem isso de mais, não é verdade? Esse teu comportamento dúbio está de acordo com a idéia que tanto defendias através de vários de teus personagens: a relatividade dos conceitos morais. Por conhecer tão bem essa realidade, tão bem construíste seres como Brás Cubas, Quincas Borba, Bentinho, Capitu, Escobar, Zé Dias, Rubião e outros. Como Lobo Neves, que tão bem refletia a arte da política e da politicagem. Fica tranqüilo, não vou incomodar, fazendo perguntas que tantos fizeram a ti e a si mesmos. Por exemplo: Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho? Flora gostava mais de Paulo ou de Pedro? O segredo é a alma e a arma do negócio, não é mesmo?

É momento de despedir-me, Bruxo do Cosme Velho! Sei que aí onde estás, continuas o mesmo: pensativo, a vasculhar na psique humana coisas que nem Freud explica. Aguardo tua resposta. Ou melhor, vou reler tuas obras. Talvez aprenda um pouco mais sobre mim mesmo e sobre a vida, deitando-me no teu divã. Por tudo isso, mereceste a exaltação de nosso maior poeta, que, em A um Bruxo com Amor, afirma categoricamente: “Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.” Alguém duvida?

Carlos César Ferreira Ibiapino é jornalista.

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