 Carta a Joaquim Maria
Carlos César Ferreira Ibiapino
Joaquim Maria (ou devo chamá-lo pelo famoso sobrenome?),
já faz cem anos que nos deixaste, mas parece que foi ontem. Vivíssimo na mente daqueles
que conhecem pelo menos um pouco de tua obra, pipocam homenagens de todos os lados neste
teu centenário de morte. Nada mais justo. Não apenas porque és o maior prosador da
literatura brasileira, mas também porque tua obra continua atual, desafiando críticos e
leitores a compreendê-la em maior profundidade. Embora estejas agora do outro lado da
vida, a perscrutar outros segredos do universo, resolvi enviar-te esta missiva para, quem
sabe caso resolvas responder-me , revelares alguns segredos de um outro
universo: o literário, que tão bem construíste.
Sinto-me acanhado diante de um bruxo que mostrou conhecer
profundamente a palavra. Mas, sobretudo, a alma humana. E colocou-a na palma da mão,
através da criação de tantas e tantas personagens que jamais conhecerão a morte. Neste
início de conversa, apelo para um poeta da modernidade, que, cantando o cotidiano, disse:
Aqui na terra estão jogando futebol/ Tem muito samba/ Muito choro e rockn
roll/ Um dia chove noutro dia bate sol/ Mas o que eu quero lhe dizer/ É que a coisa aqui
está preta... . E o que é pior: pelo jeito, vai continuar assim por muito tempo.
Era assim também no Rio de Janeiro do final do século 19, não era? Talvez, por isso, o
tédio, o pessimismo e a ironia sejam, também, presença constante em tua obra.
Pouco aprendemos da filosofia do teu Quincas Borba. E o
Humanitismo que dele emana prova apenas que continuamos os mesmos. A luta pelas batatas
continua na economia, na política, na vida social, no consumismo desenfreado... E, por
que não, na literatura também. Veja o caso do escritor Paulo Coelho. Acho que invejas o
sucesso estrondoso dele, não? Enquanto isso, tiveste que comer o pão que o diabo amassou
para, ainda em vida, pelo menos ter o talento reconhecido. Ele, ao contrário, nada de
braçadas, vende milhões de livros, viaja o mundo inteiro, tornou-se um clássico (sic) .
Tu, pobre Machado, nunca saíste do Rio de Janeiro. Ou melhor, saíste sim. Para dentro de
ti mesmo, na aventura maior do conhecer-se. Tanto que, ao ler-te, cada vez
mais conhecemos da alma humana.
Mas a verdade é que pouco aprendemos, também, do teu modo
de encarar a realidade. Isso, claro, depois que paraste de flertar com o Romantismo, do
qual disseste certa vez: morreu porque era mortal. E aí veio o melhor de tua
produção: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro... Ainda
assim, há aqueles seria inveja? que te acusam de ficar em cima do muro, em
se tratando de política e outras questões relevantes de tua época. Sabemos hoje que
não eras nenhum santo. Tanto que mataste o excelente crítico literário que havia em ti
e que se propunha a criar um novo panorama cultural no País. O crítico severo se
transformou em acadêmico sereno, principalmente após a fundação da Academia Brasileira
de Letras. Mas nem isso rouba-te as honras e os méritos.
E, afinal, o que tem isso de mais, não é verdade? Esse teu
comportamento dúbio está de acordo com a idéia que tanto defendias através de vários
de teus personagens: a relatividade dos conceitos morais. Por conhecer tão bem essa
realidade, tão bem construíste seres como Brás Cubas, Quincas Borba, Bentinho, Capitu,
Escobar, Zé Dias, Rubião e outros. Como Lobo Neves, que tão bem refletia a arte da
política e da politicagem. Fica tranqüilo, não vou incomodar, fazendo perguntas que
tantos fizeram a ti e a si mesmos. Por exemplo: Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho?
Flora gostava mais de Paulo ou de Pedro? O segredo é a alma e a arma do negócio, não é
mesmo?
É momento de despedir-me, Bruxo do Cosme Velho! Sei que aí
onde estás, continuas o mesmo: pensativo, a vasculhar na psique humana coisas que nem
Freud explica. Aguardo tua resposta. Ou melhor, vou reler tuas obras. Talvez aprenda um
pouco mais sobre mim mesmo e sobre a vida, deitando-me no teu divã. Por tudo isso,
mereceste a exaltação de nosso maior poeta, que, em A um Bruxo com Amor, afirma
categoricamente: Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Alguém duvida?
Carlos César Ferreira Ibiapino é
jornalista.
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