| Um ano-novo dos sonhos EDIVAL LOURENÇO
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No ano-novo, a espécie humana será tomada de encantos pelo
verdadeiro sentido de humanidade: o ser humano como a medida de todas as coisas.
E com isso amará o próximo como a si mesmo.
O meio ambiente será objeto de respeito, e ações efetivas
de preservação e restauro se espalharão por toda parte, numa demonstração inequívoca
de amor à vida em seu conjunto, inclusive às gerações futuras.
A violência se tornará um comportamento obsoleto que
vigorou num período de fraqueza da civilização, agora existindo somente nos livros de
história ou talvez de sociologia.
O estudo dessa coisa espúria só terá mesmo sentido como
vigilância para que a violência não volte um dia a empestar a sociedade dos homens
livres e de bem. Ninguém será tentado a experimentar uma droga ou a ela se entregar
perdidamente.
No ano-novo, os escalões do governo, de qualquer governo, de
qualquer país, não cometerão desvio de verbas nem desperdício de recursos. Como isso
os impostos serão mais leves e os benefícios mais efetivos. Os políticos serão probos
e assépticos em suas proposituras.
Cada pessoa estará focada em sua responsabilidade sem perder
a visão holística do todo. Isto implica que o aluno irá para a escola estudar, o
professor para lecionar, o trabalhador não ousará receber um tostão sem ter trabalhado,
o patrão pagará regiamente todo o dispêndio do trabalhador.
Ou melhor, esta noção de empregador e empregado
desaparecerá, pois todo mundo será sócio de objetivos nobres, claros e comuns. Cada
pessoa consumirá para viver e não viverá para consumir.
Os bancos e outras corporações, no final do ano, ao invés
de sequestrar a humanidade inteira e exigir paga de resgate, apresentarão balanços sem
máscaras, com seus grandes lucros de cara limpa. E, diante de tão bons resultados, se
associarão ao governo, às entidades sem fins lucrativos, às ONGs de restauração
ambiental e outros entes verdadeiramente altruístas, para o desenvolvimento de ações
sociais coletivas, sem no entanto exigir que suas subvenções sejam abatidas de impostos
corretamente apurados.
Celebridades sacanas terão vergonha de posar de boazinhas e
se tornarão boas de verdade e não recorrerão ao marketing para alardear seus feitos.
Aliás, só existirão celebridades apoiadas em obras, não em purpurinas e espalhafatos.
A divergência de pensamento será tolerada e até receberá
estímulos como fonte de diversidade cultural. Pois haverá um consenso no mundo que por
caminhos diversos é que se chega à redenção universal. Ou vários caminhos levam a
Roma, como diz o dito popular.
Serão derretidos os cadeados, os ferrolhos, os segredos e
senhas. Os muros serão demolidos e as grades recicladas. Os arsenais de guerra serão
desmontados integralmente, com seus metais se transformando em playgrounds para a garotada
e as partes ativas virando remédios ou fertilizantes.
No ano-novo, não teremos gente podre de rica nem ressecada
de pobre. Deveremos ter gente muito sabida, mas que seja de sabedoria verdadeira, não de
mera esperteza para impingir a ignorância às massas e explorá-las impiedosamente.
No ano-novo não restará nenhum suicida potencial que possa
matar a si mesmo como ao próximo. |