 À sombra da morte
Não direi nada sobre ela. Não posso. O Brasil
entende. Entendeu, sim. Diante da emoção do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, na missa de sétimo dia de sua mulher, a antropóloga Ruth Cardoso, é
perfeitamente compreensível como às vezes as palavras não alcançam a dimensão do que
se quer expressar.
Karla Jaime Morais
A morte de alguém querido é um desses momentos em que o
silêncio diz mais. Embora seja a certeza com a qual temos de conviver desde sempre, a
morte nos confronta com a estranheza, o mistério, a nossa extrema fragilidade. Tudo fica
ínfimo a foto de FHC e Lula no velório de Ruth sintetiza essa idéia.
Divergências políticas desaparecem em respeito à dor, na qual nos reconhecemos em nossa
humanidade.
Se a morte é uma sombra a rondar a existência
tudo agora mesmo pode estar por um segundo, como cantou Gil , a maneira
de lidar com a inexorável realidade é determinante para a vida.
A morte pode ser uma prisão, um monstro paralisante a
assombrar quem morre de medo de morrer. Morre mesmo, porque na ânsia de ter
segurança e proteção, não se permite o movimento, sem o qual não há vida. Tudo muito
bem garantido, resta o tédio. Como lembrou o psicanalista Carlos Genaro Gauto Fernández
(O POPULAR, 4/6/08), fazer as coisas sem paixão é estar morto.
Já que dela ninguém escapa aí me vem a imagem da
personagem de histórias em quadrinhos, a caveira de capuz enorme e uma foice à mão,
eficientíssima quando chega a hora de levar seu escolhido, ao qual não adianta disfarce
ou tentativa de fuga , melhor fazer dela uma sombra amiga.
Não se trata aqui de religião, metafísica. Cada um que
encontre seu caminho e, nele, seja respeitado. A idéia é pensar em como morrer menos em
vida, no dia-a-dia, nas menores ações. Que tal começar diminuindo a importância que
tendemos a nos auto-atribuir? Lembrando: dela ninguém escapa e, portanto, essa certeza
nos iguala. Fica mais fácil diminuir arroubos de irritação por quase nada; fica mais
fácil olhar para o outro como gente também.
Do alto de seus 100 anos, o arquiteto Oscar Niemeyer ensina:
A vida é sopro. Nos momentos tranqüilos, é brincar, ter bom humor. Nas horas de
dor, resta suportar.
Karla Jaime Morais é
editora de Opinião.
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