Goiânia, 4 de julho de 2008

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À sombra da morte

“Não direi nada sobre ela. Não posso. O Brasil entende.” Entendeu, sim. Diante da emoção do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na missa de sétimo dia de sua mulher, a antropóloga Ruth Cardoso, é perfeitamente compreensível como às vezes as palavras não alcançam a dimensão do que se quer expressar.

Karla Jaime Morais

A morte de alguém querido é um desses momentos em que o silêncio diz mais. Embora seja a certeza com a qual temos de conviver desde sempre, a morte nos confronta com a estranheza, o mistério, a nossa extrema fragilidade. Tudo fica ínfimo – a foto de FHC e Lula no velório de Ruth sintetiza essa idéia. Divergências políticas desaparecem em respeito à dor, na qual nos reconhecemos em nossa humanidade.

Se a morte é uma sombra a rondar a existência – “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”, como cantou Gil –, a maneira de lidar com a inexorável realidade é determinante para a vida.

A morte pode ser uma prisão, um monstro paralisante a assombrar quem “morre de medo de morrer”. Morre mesmo, porque na ânsia de ter segurança e proteção, não se permite o movimento, sem o qual não há vida. Tudo muito bem garantido, resta o tédio. Como lembrou o psicanalista Carlos Genaro Gauto Fernández (O POPULAR, 4/6/08), “fazer as coisas sem paixão é estar morto”.

Já que dela ninguém escapa – aí me vem a imagem da personagem de histórias em quadrinhos, a caveira de capuz enorme e uma foice à mão, eficientíssima quando chega a hora de levar seu escolhido, ao qual não adianta disfarce ou tentativa de fuga –, melhor fazer dela uma sombra amiga.

Não se trata aqui de religião, metafísica. Cada um que encontre seu caminho e, nele, seja respeitado. A idéia é pensar em como morrer menos em vida, no dia-a-dia, nas menores ações. Que tal começar diminuindo a importância que tendemos a nos auto-atribuir? Lembrando: dela ninguém escapa e, portanto, essa certeza nos iguala. Fica mais fácil diminuir arroubos de irritação por quase nada; fica mais fácil olhar para o outro como gente também.

Do alto de seus 100 anos, o arquiteto Oscar Niemeyer ensina: “A vida é sopro. Nos momentos tranqüilos, é brincar, ter bom humor. Nas horas de dor, resta suportar”.

Karla Jaime Morais é editora de Opinião.

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