Goiânia, 4 de julho de 2008

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O discurso de Aidenor

::JOSÉ MENDONÇA TELES

Dezembro de 1978, no salão de festas do Clube Jaó, em plena ditadura militar, os bacharelandos do curso de Direito da Universidade Católica de Goiás, Turma Miguel Batista Siqueira, festejavam sua formatura. Salão de festas lotado e, à mesa, as autoridades mais representativas, entre elas os agentes oficiais do regime militar. Após as formalidades de praxe, é anunciada a palavra do orador, o formando Aidenor Aires.

Foi um discurso arrebatador. A beleza e a harmonia das frases, a coragem na colocação dos problemas que afligiam os cursos jurídicos e a sociedade brasileira. A crítica ao comportamento da Justiça, “deusa estrábica e cansada sustentando uma balança viciada em constante desequilíbrio”, a indiferença de uma geração fatigada de ver leis injustas, tendenciosas, casuísticas, elaboradas para a preservação de privilégios, fizeram da oração de Aidenor uma das peças mais belas de todos os discursos pronunciados em solenidades de formatura.

O orador foi aplaudido de pé, com palmas intermináveis, deixando constrangidas as autoridades do regime militar presentes à mesa, que, por uma questão da unanimidade da platéia, educadamente se levantaram e “bateram” também suas palmas.

Sendo diretor, à época, do Centro de Cultura Goiana, da UCG, fiz um ofício à Reitoria solicitando autorização à gráfica da universidade para que se publicasse o discurso, com mil cópias, que fossem distribuídas aos alunos do curso de Direito, para despertar neles “os valores da cultura e da retórica”.
Agora, passados 30 anos, reli o discurso do meu amigo e poeta Aidenor Aires, hoje dirigindo, com sabedoria, o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Como esquecer aquela noite, Aidenor falando e o público, atento, acompanhando sua oração? “Nós viemos do silêncio... De mais uma década de exceções. Estudamos o direito sob o arbítrio... Não viemos, certamente, para reeditar o passado. Cada homem é um milagre novo entre os milagres do mundo. Ninguém olhará as estrelas como ele... Somos uma geração inconformada, que não perdeu a crença... É preciso que haja um tempo em que desrespeito aos direitos fundamentais da pessoa seja apenas uma negra memória... Porque o homem é o senhor da História...”. Concluindo o histórico discurso, Aidenor recita o poema de José Régio, no Cântico Negro, e finaliza : “Não sei pra onde eu vou. Sei que não vou por aí!”