| O discurso de Aidenor ::JOSÉ MENDONÇA TELES
Dezembro de 1978, no salão de festas do Clube Jaó, em plena
ditadura militar, os bacharelandos do curso de Direito da Universidade Católica de
Goiás, Turma Miguel Batista Siqueira, festejavam sua formatura. Salão de festas lotado
e, à mesa, as autoridades mais representativas, entre elas os agentes oficiais do regime
militar. Após as formalidades de praxe, é anunciada a palavra do orador, o formando
Aidenor Aires.
Foi um discurso arrebatador. A beleza e a harmonia das
frases, a coragem na colocação dos problemas que afligiam os cursos jurídicos e a
sociedade brasileira. A crítica ao comportamento da Justiça, deusa estrábica e
cansada sustentando uma balança viciada em constante desequilíbrio, a indiferença
de uma geração fatigada de ver leis injustas, tendenciosas, casuísticas, elaboradas
para a preservação de privilégios, fizeram da oração de Aidenor uma das peças mais
belas de todos os discursos pronunciados em solenidades de formatura.
O orador foi aplaudido de pé, com palmas intermináveis,
deixando constrangidas as autoridades do regime militar presentes à mesa, que, por uma
questão da unanimidade da platéia, educadamente se levantaram e bateram
também suas palmas.
Sendo diretor, à época, do Centro de Cultura Goiana, da
UCG, fiz um ofício à Reitoria solicitando autorização à gráfica da universidade para
que se publicasse o discurso, com mil cópias, que fossem distribuídas aos alunos do
curso de Direito, para despertar neles os valores da cultura e da retórica.
Agora, passados 30 anos, reli o discurso do meu amigo e poeta Aidenor Aires, hoje
dirigindo, com sabedoria, o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Como esquecer
aquela noite, Aidenor falando e o público, atento, acompanhando sua oração? Nós
viemos do silêncio... De mais uma década de exceções. Estudamos o direito sob o
arbítrio... Não viemos, certamente, para reeditar o passado. Cada homem é um milagre
novo entre os milagres do mundo. Ninguém olhará as estrelas como ele... Somos uma
geração inconformada, que não perdeu a crença... É preciso que haja um tempo em que
desrespeito aos direitos fundamentais da pessoa seja apenas uma negra memória... Porque o
homem é o senhor da História.... Concluindo o histórico discurso, Aidenor recita
o poema de José Régio, no Cântico Negro, e finaliza : Não sei pra onde eu vou.
Sei que não vou por aí! |