Goiânia, 4 de julho de 2008

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Rafael Andrade/Folha Imagem

Ghidetti à frente de outros militares acusados de entregar jovens a rivais no Rio

“Era para dar um susto”, diz tenente

Argumento foi utilizado por Vinicius Ghidetti, militar que comandava o grupo que entregou três jovens a traficantes no Rio

Rio - A Justiça Federal começou a ouvir ontem seis dos 11 militares acusados de homicídio triplamente qualificado por terem entregue a traficantes de uma quadrilha rival três moradores do morro da Providência, no Rio. Nos interrogatórios, ficou evidente a diferença da estratégia da defesa do tenente Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade em relação à dos demais militares. O oficial tentou convencer o juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Criminal Federal, de que só queria dar um corretivo nos três jovens.

Já os praças insistiram que desconheciam a intenção do tenente. Ghidetti chorou quando o juiz perguntou sobre como era a vida dele. Ele disse que é casado há seis meses e que tem um filho de dois meses. No seu interrogatório, Ghidetti tentou passar a idéia de que não pretendia entregar os jovens aos traficantes, o que teria ocorrido por conta de “um encontro fortuito”. Sua idéia era deixar Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, de 19 anos, David Wilson Florenço da Silva, de 24, e Marcos Paulo Rodrigues Campos, de 17, perto de uma comunidade dominada por uma facção rival ao Comando Vermelho, que domina o morro da Providência.

“Houve um encontro fortuito, tanto que ficamos assustados. Por isso, o sargento Maia foi até eles explicar que não era uma operação. E que só queríamos dar um susto nos três, que tinham nos desacatado”. Ele negou que tenha oferecido os jovens como “um presentinho” aos traficantes, conforme depoimento dos praças à polícia.

Inicialmente, Ghidetti tentou dizer que não pretendia desobedecer ordens do superior, o capitão Laerte Ferrari Alves. “Fui formado na academia e aprendi que se deve obedecer ordens dos superiores. Eu queria dar um susto. Queria deixá-los com cagaço”. O juiz quis saber se foi na academia que ele aprendeu a dar “sustos” nas vítimas. Ghidetti nada explicou.

O advogado do tenente, Luiz Azenha, tenta descaracterizar a denúncia de homicídio doloso. Se ficar provado que o crime dos militares não foi contra a vida, o caso pode voltar para a Justiça Militar.

Já a tese da defesa dos demais militares, como explicou o advogado Sérgio André Moraes, que defende o sargento Leandro Maia Bueno, é mostrar que os subordinados do oficial desconheciam a intenção de entregar os jovens para traficantes.

O sargento foi o segundo a depor e se contradisse várias vezes. E em todas elas foi advertido pelo juiz. “Não caí de pára-quedas nessa cadeira. Não fui criado em apartamento do Leblon. Não soltei pipa em ventilador, nem joguei bola de gude em carpete. Sou da zona norte, portanto, quero coerência”, disse o juiz.

Maia negou que tivesse tomado à frente das negociações com os traficantes, para avisá-los de que levavam os jovens. Confrontado pelo juiz com o depoimento do tenente, voltou atrás. Mas insistiu que o fato de ter dito aos traficantes que estavam ali para dar um corretivo foi “mera coincidência” com o que pensava o tenente. (AE)

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