Goiânia, 3 de julho de 2008

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Levei um tapa na cara

Carla Borges

Eu me senti profundamente ofendida ao saber que nossos ilustres representantes na Assembléia Legislativa embolsaram, terça-feira, R$ 3,6 mil, ou 8,67 salários mínimos, com a realização de 12 sessões extraordinárias em um período de quatro horas, das 15 às 19 horas. Cada hora de trabalho foi remunerada em 900 reais! Fiquei mais incrédula ainda ao saber que o bônus será acrescido a um salário reajustado em 29,26%, que passou de R$ 12,3 mil para R$ 15,9 mil.

Aí vem a explicação do líder do governo, Helder Valim (PSDB): “Já é praxe. A gente faz uma divisão dos projetos em blocos, para a ata de cada sessão não ficar tão extensa e também para dar tempo dos outros colegas chegarem, o que garante uma participação mais ampla no processo.”

Essa explicação soou como um insulto à minha inteligência. Indignação é pouco. Levei um tapa na cara. Então, fazem essa divisão para dar tempo de mais colegas chegarem. Claro, é preciso haver generosidade na distribuição do dinheirinho que custeamos com o pagamento de impostos.

O escárnio soa maior quando consideramos estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Este ano, o brasileiro comum (nós) precisou trabalhar 147 dias, de 1º de janeiro a 27 de maio, apenas para pagar impostos. O mesmo levantamento calculou que os brasileiros que nasceram em 2008 trabalharão cerca de 40% de suas vidas só para pagar impostos. Dos 72,3 anos projetados pela expectativa de vida medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 29,29 anos serão gastos apenas com o pagamento de impostos e taxas.

Outro estudo, baseado no Censo do IBGE, mostra que um quarto da população brasileira (24,4% dos trabalhadores ocupados) ganha até um salário mínimo. Mais da metade da população (51,9%) ganha até dois mínimos, ou 830 reais. São 30 dias de trabalho duro para receber menos do que cada deputado presente à sessão de terça-feira por hora. Nossos parlamentares apreciaram cerca de 90 mensagens, muita coisa para uma tarde só. Poderiam ter recebido por isso o equivalente a apenas uma sessão extra, ou, em um gesto de decência, em autoconvocação, sem nenhuma despesa para o bolso do contribuinte.

Carla Borges é jornalista.

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