 Levei um tapa na cara
Carla Borges
Eu me senti profundamente ofendida ao saber que nossos
ilustres representantes na Assembléia Legislativa embolsaram, terça-feira, R$ 3,6 mil,
ou 8,67 salários mínimos, com a realização de 12 sessões extraordinárias em um
período de quatro horas, das 15 às 19 horas. Cada hora de trabalho foi remunerada em 900
reais! Fiquei mais incrédula ainda ao saber que o bônus será acrescido a um salário
reajustado em 29,26%, que passou de R$ 12,3 mil para R$ 15,9 mil.
Aí vem a explicação do líder do governo, Helder Valim
(PSDB): Já é praxe. A gente faz uma divisão dos projetos em blocos, para a ata de
cada sessão não ficar tão extensa e também para dar tempo dos outros colegas chegarem,
o que garante uma participação mais ampla no processo.
Essa explicação soou como um insulto à minha
inteligência. Indignação é pouco. Levei um tapa na cara. Então, fazem essa divisão
para dar tempo de mais colegas chegarem. Claro, é preciso haver generosidade na
distribuição do dinheirinho que custeamos com o pagamento de impostos.
O escárnio soa maior quando consideramos estudo realizado
pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Este ano, o brasileiro comum
(nós) precisou trabalhar 147 dias, de 1º de janeiro a 27 de maio, apenas para pagar
impostos. O mesmo levantamento calculou que os brasileiros que nasceram em 2008
trabalharão cerca de 40% de suas vidas só para pagar impostos. Dos 72,3 anos projetados
pela expectativa de vida medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), 29,29 anos serão gastos apenas com o pagamento de impostos e taxas.
Outro estudo, baseado no Censo do IBGE, mostra que um quarto
da população brasileira (24,4% dos trabalhadores ocupados) ganha até um salário
mínimo. Mais da metade da população (51,9%) ganha até dois mínimos, ou 830 reais.
São 30 dias de trabalho duro para receber menos do que cada deputado presente à sessão
de terça-feira por hora. Nossos parlamentares apreciaram cerca de 90 mensagens, muita
coisa para uma tarde só. Poderiam ter recebido por isso o equivalente a apenas uma
sessão extra, ou, em um gesto de decência, em autoconvocação, sem nenhuma despesa para
o bolso do contribuinte.
Carla Borges é
jornalista.
ÍNDICE |