| Amar o amor ::BRASIGÓIS FELÍCIO::
Sempre pensei ser o Roberto Carlos um amador especial
desses que não amam uma pessoa, uma mulher especial: amam o amor. Por isto ele chorou, ao
cantar com Ivete Sangalo, a bela canção Se eu Não Te Amasse Tanto Assim. RC é uma
criatura amorosa e sofrida (sofrida em seu amor), uma vez que em suas entregas sempre vai
acompanhado pela dor de perder as mulheres que ama. E sempre pela mesma doença.
Quando nos colocamos fechados para o amor, nos tornamos
mortos-vivos. Cegos e néscios, incapazes de seguir o fulgor de nosso sonho mais alto.
Então, passamos a viver na escuridão de quem não pode sonhar caminhos que possa seguir
com alegria. Mas o que ama o amador, senão o sonho mais firme, que vive a construir
dentro de si? Se o amador não amasse tanto assim, seu viver seria tão sem caminhos que
não poderia seguir em frente, a não ser para abraçar a morte que vive a construir
dentro de si.
Carregamos o peso (ou a leveza) de nossa alma, assim como
também levamos as almas dos que participam da trama de nossa vida. Há os fanáticos pelo
ódio, e também os fanáticos pelo que chamam de amor. Matam em nome da pátria, assim
como assassinam levando bandeiras de sublimes ideais de salvação do mundo ou da
alma. Mata-se para não ser incoerente; para não levar desaforo para casa,
para lavar a honra, ou por motivo de fama ou infâmia pois que é
vasta, e cresce como praga, a insanidade humana.
Existir é compartilhar sonhos, desejos, frustrações. Não
somos os nossos pensamentos, mas nossos pensamentos constituem tudo o que somos.
Cada uma de nossas palavras e ações é governada por uma intenção. Basta
aprender a retomar o fio de nossos pensamentos para descobrirmos a intenção profunda que
os inspirou. Assim escreveu Pierre Levy, pós-doutor da cibercultura, e filósofo
nas horas vagas (que são poucas), mas suficientes para escrever candentes verdades.
Levy assinala: As disposições da alma para o amor e o
sofrimento são fortemente condicionadas pelo que vemos e ouvimos ao nosso redor e, mais
particularmente, pelo que sentimos das intenções dos outros a nosso respeito.
Quanto mais próximos estão de nós, mais participam da
moldagem de nossa alma, e da trama de nossa vida. De modo similar, temos o dever de
conhecer honestamente nossas intenções e sentimentos, controlar nossas palavras e nossos
atos, porque eles contribuem para tecer a alma dos outros, em especial daqueles que nos
são próximos.
Se nossa alma está repleta da alma dos outros, decidir parar
de sofrer é também decidir amar os outros.
É decidir amar a vida tanto assim. |