Goiânia, 2 de outubro de 2008

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Amar o amor

::BRASIGÓIS FELÍCIO::

Sempre pensei ser o Roberto Carlos um amador especial – desses que não amam uma pessoa, uma mulher especial: amam o amor. Por isto ele chorou, ao cantar com Ivete Sangalo, a bela canção Se eu Não Te Amasse Tanto Assim. RC é uma criatura amorosa e sofrida (sofrida em seu amor), uma vez que em suas entregas sempre vai acompanhado pela dor de perder as mulheres que ama. E sempre pela mesma doença.

Quando nos colocamos fechados para o amor, nos tornamos mortos-vivos. Cegos e néscios, incapazes de seguir o fulgor de nosso sonho mais alto. Então, passamos a viver na escuridão de quem não pode sonhar caminhos que possa seguir com alegria. Mas o que ama o amador, senão o sonho mais firme, que vive a construir dentro de si? Se o amador não amasse tanto assim, seu viver seria tão sem caminhos que não poderia seguir em frente, a não ser para abraçar a morte que vive a construir dentro de si.

Carregamos o peso (ou a leveza) de nossa alma, assim como também levamos as almas dos que participam da trama de nossa vida. Há os fanáticos pelo ódio, e também os fanáticos pelo que chamam de amor. Matam em nome da pátria, assim como assassinam levando bandeiras de sublimes ideais de salvação do mundo – ou da alma. Mata-se para não ser incoerente; para “não levar desaforo para casa”, para “lavar a honra”, ou por motivo de fama ou infâmia – pois que é vasta, e cresce como praga, a insanidade humana.

Existir é compartilhar sonhos, desejos, frustrações. Não somos os nossos pensamentos, mas nossos pensamentos constituem tudo o que somos. “Cada uma de nossas palavras e ações é governada por uma intenção. Basta aprender a retomar o fio de nossos pensamentos para descobrirmos a intenção profunda que os inspirou.” Assim escreveu Pierre Levy, pós-doutor da cibercultura, e filósofo nas horas vagas (que são poucas), mas suficientes para escrever candentes verdades.

Levy assinala: “As disposições da alma para o amor e o sofrimento são fortemente condicionadas pelo que vemos e ouvimos ao nosso redor e, mais particularmente, pelo que sentimos das intenções dos outros a nosso respeito.

Quanto mais próximos estão de nós, mais participam da moldagem de nossa alma, e da trama de nossa vida. De modo similar, temos o dever de conhecer honestamente nossas intenções e sentimentos, controlar nossas palavras e nossos atos, porque eles contribuem para tecer a alma dos outros, em especial daqueles que nos são próximos.

Se nossa alma está repleta da alma dos outros, decidir parar de sofrer é também decidir amar os outros.”

É decidir amar a vida “tanto assim”.