| Lenda suburbana ::EDIVAL LOURENÇO
Antônia, depois de desesperados tratamentos, no ocaso da
fertilidade, teve uma filhinha. Menina linda, carinhosa, olhos verdes, cabelo bom, uma
graça a Ana Maria.
Mas como nem tudo são flores, o marido morreu vítima de
emboscada de cheiradores de cola aos dois anos da filha. Biscateiro, não deixou pensão.
Antônia teve de trocar o emprego de meio expediente por um de período integral, para dar
conta do conforto que ela queria dar. Aquelas coisas que ela própria não teve, mas para
a filha... Mesmo sendo uma viúva de subúrbio, já se cozinhando no banho-maria do
climatério e se enfeixando em rugas.
Agora deixava a filhinha de manhã na escola. Ia para o
trabalho do outro lado da cidade. Não almoçava em casa, ai meu Deus, que pesar! Ao sair
da escola, a filha ficava na casa de uma tia, irmã do falecido pai, até a mãe retornar,
com os assombros da noite.
À tarde a menina vivia o seu trivial. Brincava com os primos
maiores, ajudava a tia numa coisinha ou outra. Lavava um prato, varria um cômodo,
enxugava talheres e, principalmente, fazia as tarefas de casa. Às vezes via televisão ou
escutava música. Sonhava ser bailarina, como sonha toda normal menina.
Na quinta-feira o programa era diferente. Era o dia de ir com
a tia até a horta do seu Dodô Ladainha e comprar frutas, verduras, tubérculos e legumes
fresquinhos para a semana. Ana Maria adorava. Seu Dodô tinha cabras, galinhas, frutas de
colher com a mão. Tinha netos seu Dodô e sua quinta era uma festa, além do próprio seu
Dodô que era uma alegria só.
Mas a fatalidade parecia espreitar Antônia e sua adorada
filhinha de olhos verdes e cabelo bom. Naquela tarde de quinta, como era de costume, foi
com a tia buscar as coisas na horta de seu Dodô Ladainha. A tia pegou a sacola pesada:
mangarito, mandioca, batata-doce, tomate, feijão-de-vagem, jiló, pepino, as frutas da
estação.
Para a menina passou a sacola com as folhagens: alface,
chicória, acelga, rúcula, couve e almeirão, além das folhas de chá como, alecrim,
hortelã capim-de-cheiro, alfavaca.
No caminho de volta, Ana Maria reclamou pra tia que a sacola
estava dando choque. A tia achou graça da pilhéria e falou que ela estava puxando à
família da mãe, que é um povinho moroso e deitado com a carga.
Ana Maria foi murchando como as folhas retiradas do ramo, foi
ficando pra trás com o pretexto de que a sacola estava dando choque. E a tia arengava com
exclamações: deixa de moleza, menina!
Mas Ana Maria caiu no chão, desfalecida. A tia veio
correndo. Vieram os vizinhos. O braço da menina estava roxo e a mão cheia de pares de
pequenos furos. Um vizinho encontrou entre as folhas de alface uma serpente cascabulho, de
mais ou menos um palmo e meio. Era tarde demais para a busca de qualquer socorro à futura
bailarina de olhos verdes e cabelo bom. |