Goiânia, 1º de outubro de 2008

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Bolsa não tira criança do trabalho

Benefício financeiro oferecido pelo Bolsa família, do governo federal, não elimina o problema

Carla de Oliveira

Programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família, não contribuíram para reduzir o trabalho infantil no País. O questionamento é feito pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) sobre dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad) 2007, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Dados do Ipea revelam que em 36% das famílias a contribuição das crianças que têm rendimento e não freqüentam a escola varia de um terço a 100% da renda familiar. No entanto, essa importância na composição do orçamento familiar cai para 7% em famílias que têm crianças trabalhando e também freqüentando a escola.

Segundo o Ipea, um dos motivos da persistência do trabalho infantil seriam os baixos valores pagos pelo Bolsa Família. A falta de punição para o não-cumprimento das condições exigidas pelo programa é outra razão apontada pelo instituto para o menor permanecer no trabalho. Dessa forma, a criança recebe do programa e ainda permanece no emprego.

2,5 milhões
A pesquisa revela que o trabalho infantil ainda rouba a infância de mais de 2,5 milhões de crianças brasileiras, com idade de 5 a 15 anos. Em Goiás, 136 mil crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, trabalham, o que equivale a 4,64% da população ocupada no Estado, formada por 2 milhões 927 mil pessoas.

O levantamento demonstra que pouca coisa mudou de um ano para outro. Em 2006, 2,7 milhões de crianças brasileiras, da mesma faixa etária, encontravam-se na mesma situação. Em Goiás, o quadro não é diferente. A redução no número de crianças e adolescentes, com idade entre 5 e 17 anos que trabalham, foi de apenas 1,45%.

Representantes de órgãos e entidades que atuam no enfrentamento do trabalho infantil, principalmente na capital, afirmam que a redução foi pequena. No entanto, uma mudança chama a atenção em Goiânia. O perfil do trabalhador infantil está mudando.

Em duas ações realizadas pela Superintendência Regional do Trabalho, em conjunto com o Ministério Público (MP) estadual, conselhos tutelares, Polícia Militar, Juizado da Infância e Juventude e Sociedade Cidadão 2000, poucas crianças (o relatório das ações está em fase final) foram encontradas trabalhando à noite (veja reportagem nesta página). Entre os encontrados, eles já não fixam o ponto de trabalho, passando a atuar de forma itinerante. São principalmente adolescentes entre 16 e 17 anos, que atuam após as 22 horas.

Uma das explicações para isso, de acordo com a coordenadora do Núcleo de Apoio a Ações Especiais da Superintendência do Trabalho em Goiás, a auditora fiscal do trabalho Katleem Marla Pires de Lima, é a fiscalização mais rigorosa realizada nos últimos anos. Outro fator é a conscientização dos clientes e donos de estabelecimentos que, temendo ações fiscais, acabam impedindo que crianças ofereçam seus produtos em seus estabelecimentos.

As ações, segundo afirma a auditora, atingiram cerca de 60 estabelecimentos e suas imediações no Jardim América, Sul, Nova Suíça, Marista, Bueno e Jaó. Segundo assinala, o trabalho infantil é alimentado por questões econômicas das famílias e pela existência de “consumidores” deste tipo de atividade praticada por crianças.

Além disso, observa, é preciso melhorar o atendimento às crianças em programas que priorizem uma educação de qualidade, que lhes permitam uma boa formação e competitividade para ingressar no mercado formal de trabalho e receber salários compatíveis.

Quando se trata do trabalho infantil diurno a percepção não é a mesma. É comum e aceitável por parte da população encontrar e contratar serviços de crianças, principalmente em feiras livres, onde auxiliam nas vendas ou no transporte de mercadorias e montagem de bancas.

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