| Viagem pela Recife de Nassau Mariza Santana
Recife, a capital pernambucana também conhecida como Veneza
Brasileira devido aos seus canais, ainda conserva as marcas do período em que foi
conquistada pelos holandeses, no século 17, passando a ser administrada pelo príncipe de
Orange, Maurício de Nassau (1637-1644) em nome da WIC, a Companhia das Índias
Ocidentais. Com o nobre veio um grupo de cientistas (astrônomos, botânicos,
cartógrafos, naturalistas, arquitetos e engenheiros) e artistas plásticos, para realizar
pesquisas, mapear a costa pernambucana, construir palácios e pontes, além de retratar o
povo nativo e as belezas do local.
O livro A Cidadela Inventada, do escritor pernambucano Pihba
Cavalcanti, reconstitui os últimos anos de Nassau como governador-geral do enclave
português no Recife, e ainda as aventuras e desventuras de alguns cientistas que o
serviram. Um dos personagens é o astrônomo Georg Markgraf, que relata sua formidável
habilidade de viajar em estado de antimatéria pelo tempo e espaço ao seu dileto amigo, o
cartógrafo Adriaen van der Zee. Esse, por sua vez, assume a missão de compilar essas
aventuras imateriais que levam o astrônomo a se encontrar com o escritor francês
François Rabelais, cem anos atrás; a retornar à infância e até a pousar na
superfície da lua.
Narrado com leveza e humor, o livro mostra como era a vida em
Maurits-Stad, nome dado à cidadela dos batavos instalada ao lado do porto de Recife.
Relata ainda as atividades dos engenhos de açúcar da região, o Quilombo dos Palmares
formado por negros escravos fugidos, e as obras de Nassau, que queria transformar o local
em um exemplo de uma nova civilização. Os cientistas que serviam a Companhia das Índias
Ocidentais no Recife fundaram ainda a confraria dos Mensageiros do Futuro, que incluía
Margraf e van der Zee.
Nas reuniões desse grupo ocorriam debates apaixonados a
respeito de rituais mágicos dos negros africanos, dos legados dos povos da desaparecida
Atlântida, das propriedades medicinais das ervas cultivados pelos povos indígenas e das
alterações sensoriais provocados pelo uso do ópio. Também discutiam sobre um antigo
artefato, denominado simplesmente de machina incognita. Antigas lendas medievais se
mesclavam a crendices dos povos nativos do Novo Mundo, numa verdadeira miscelânia
cultural.
Um dos episódios interessantes é a descoberta em uma praia,
pelos cientistas batavos, do corpo de um animal morto totalmente diferente, que foi
dissecado e continuou incompreensível. Somente a intervenção de um homem da terra para
apontar o veredito: era o peixe-boi, ainda desconhecido dos conquistadores europeus.
Pihba Cavalcanti adota uma maneira peculiar de narrar os
episódios de seus personagens, sem levar em consideração a linearidade. O resultado é
uma história original sobre o período em que Recife ficou sob o domínio dos holandeses.
O escritor termina seu relato com o retorno do príncipe aos Países Baixos, atendendo às
ordens da Companhia das Índias Ocidentais, e a cidadela já sob o cerco dos
luso-brasileiros que retomaram aquela parte da colônia para os domínios da Coroa
Portuguesa.
No fim do relato, o escritor reforça que o cartógrafo
Adriaen van der Zee cumpriu sua promessa e publicou, em Lieden, na Holanda, os relatos
contidos no manuscrito compilado por ele, denominado As Espantosas e Secretíssimas
Viagens Antimateriais do Astrônomo, Botânico e Zoólogo Georg Markgraf van Liebstadt,
aventuras que compõem o livro de Pihba Cavalcanti.
TÍTULO:
A Cidadela Inventada
Autor: Pihba Cavalcanti
Página: 240
Preço: R$ 33,00
Editora: Bertrand Brasil |