Goiânia, 1º de julho de 2008

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As 48 Leis do Poder
R. Greene e J. Elffers (Ed. Rocco)
“Este livro contém idéias e informações que podem ser úteis para os que almejam o poder com a finalidade de não caírem vítimas da absoluta demonstração e exercício de autoridade.”
Tânia Franco – arquiteta

Amor maldito

O Bracelete de Granadas, do escritor russo aleksandr Ivánovitch Kuprin, traz as marcas do erótico e de um humanismo intenso

Éris Antônio Oliveira
Especial para O POPULAR

O escritor russo Aleksandr Ivánovitch Kuprin, atualmente, traduzido e disponibilizado no Brasil pela Editora Globo, nos brinda com uma prosa bem realizada, feita com inteligência e sensibilidade. Sua obra traz as marcas de um humanismo intenso e de uma beleza rara, que chega a ser comovente.

O nome do livro ora analisado, O Bracelete de Granadas, deriva da denominação dada a um dos contos, o mais longo desta obra, que tem como enredo o amor estonteante de um súdito (Jeltkov) por uma princesa (Vera Nikoláevna).

Suas páginas vêm glosadas de sentimentos profundos, de sabedoria ancestral e de desejos arrebatadores. Com isso, esse autor nos convence de que a pena, em sua mão, torna-se um olho perscrutador voraz dos embates e segredos fundamentais de nossa experiência vivencial.

Analista exemplar da condição humana, Kuprin deixa deslizar, em seus contos, as grandes paixões, a solidão e as carências de forma quase grotesca. Ele consegue captar, com singular habilidade, os anseios e os conflitos que animam a alma de suas personagens, mantendo a intensidade e o vigor nela sempre presentes.

Esse autor teve suas obras publicadas na Rússia no final do século 19 e início do século 20. Foi, portanto, contemporâneo de Tchekhov e de Górki, escritores primorosos muito apreciados pelos leitores brasileiros.

No conto O Bracelete de Granadas, Jeltkov, um humilde funcionário da Câmara de Controle, órgão do governo russo, apaixona-se, à primeira vista, pela princesa Nikoláevna, e para oferecer-lhe uma jóia de grande valor – o bracelete de granadas – à altura do status elevado desta, sacou fraudulentamente dinheiro do erário. A princesa, que era casada, recusou o presente. Vendo-se o infrator sem a pessoa amada e com grande débito com o Estado, suicida-se. Mas esse trágico acontecimento é narrado com excepcional maestria e com vívido encanto.

Contraponto
Kuprin consegue fazer um excelente contraponto entre essa narrativa e a Sonata n. 2, opus 2, Largo Apassionato, de Beethoven, de modo a ressaltar a bela correlação que se pode estabelecer entre a música e a literatura, criações artísticas que se intercambiam permanentemente.

O tema do amor impossível é instaurador de uma energia que orienta todo um programa de fundamentação erótica, da esfera do desejo e da lógica do paradoxo, desenhando modos peculiares de leitura que permitem a ampliação irrestrita do campo simbólico da cultura, de modo que se possa vislumbrar a supremacia do “impossível verossímil” sobre o “possível incrível”, como postulou Aristóteles, na Poética.

Escritor intimista, dotado de profícua imaginação, Kuprin faz da experiência com a linguagem um compromisso pessoal de revelar segredos profundos que se ocultam na alma humana, reconhecendo na escrita literária o caráter de jogo que torna a arte um campo criativo por excelência.

Também no conto Allez!, que em francês significa “Avante!”, uma artista circense, na tenra idade, apaixona-se por um palhaço acrobata bem-sucedido, muito mais velho do que ela, mas o namoro tem vida curta e ela retorna, em seguida, ao seu vazio existencial.

Esses contos mostram, sempre, a inconciliabilidade entre as pretensões do indivíduo e as formas objetivas que a vida lhe oferece. São narrativas reveladoras da maneira de ser do homem no mundo, que se exprime, muitas vezes, pelas desordens objetivas do real, lugar em que a felicidade nem sempre é possível.

Lutando contra o vazio da existência, as personagens de Kuprin buscam momentos de realização no mundo, mas esses nunca se completam, tornando a vida uma experiência martirizante e, muitas vezes, difícil de ser harmonizada com os nossos anseios. Entre realização e incompletude, a maioria das pessoas experimenta a segunda possibilidade, confirmando a postulação de Guimarães Rosa, segundo a qual “viver é muito perigoso”. A obra desse artista russo é emissária de um mundo do qual nos sentimos alheios.

TÍTULO:
¤ O Bracelete de Granadas
¤ Autor: Aleksandr Ivánovitch Kuprin
¤ Editora: Globo
¤ Preço médio: R$ 30,00

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