Goiânia, 1º de julho de 2008

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A fumarada dos loucos

GABRIEL NASCENTE

Ah, não me lembro! E se me lembro, é blefe. Falácia não será. Ó meu pio leitor! E lembrar do que não me lembro, me será para desde sempre, não esquecer dos esquecidos de mim, tão longe a cada dia; que lembrar é compungir-se, recalcitrar, torcer a memória e, de olhos fixos, escancaradamente arregalados, para o passado, onde tudo foi aurora e treva, prólogo de feto, proêmio de toda a luz da vida? Pois então que, eu vim de lá. E viver é perder o jogo? Mas como? Se de mim safar-me, outro por mim não me absolvirá “do labirinto dos meus erros”, ao místico estilo santagostiniano. Se a cabeça, ó, atordoada, agora preocupa com outras coisas; e o texto insiste, persiste, teimosamente obstinado: nascer para falar. E todos sabem. Sou um servo da poesia, que é a casa da minha alma. E canto, avergoado, detonando sobretudo as farpas do meu verbo contra os amaríssimos frutos da mote, engendrados pelas serpes da treva.

Daí pra frente o Luobaldo me pediu a palavra e deu um baita de um resmundo: “Diabo! O barulho dos automóveis, nas ruas, tem me enervado continuamente, em meio a buzinaços, ronco de motores, freadas estúpidas e alarmas de ambulâncias, por conta dos “cavalos” ao volante, não me deixando ouvir o melodioso canto da fogo-apagou, muito menos o gorjeio da pobre juriti, tão merencória em seus suspiros de ofegante nostalgia. Que coisa horríssona é uma cidade, com os comparticipantes de sua loucura. E nós dentro dela feito insetos na garrafa. É isso aí, seu ameba!”

– Que desvairio é este? Sossega, língua de acúleo, alma de enfant terrible. Eu e você, o nós de cada um, estamos enlanguescidos de tudo isso, da fumarada dos loucos dentro da cidade. Retruquei o Luobaldo, pessimista nos recônditos do seu íntimo. Ateu disfarçado. Filho da puta. E veja só a conversa que ele me trouxe, depois que pediu licença à namorada para ir ao mictório, em plena sessão cinematográfica; e, de lá, atravessou a porta do cinema, e escafedeu-se na tarde, sem se dar conta de que estava em companhia da gata-musa dos seus sonhos. Eita cabeça desmiolada a do Luobaldo! Esquecer a namorada no cinema, isso é lá coisa de homem. Não. É de lobisomem. Então ele me disse:

– Há mais de 20 anos que eu não vejo o mar. E estou saudoso do espumante marulhar das ondas.

– E eu tenho alguma coisa com isso?

– Não. Não. Tudo que penso é arremesso de palavras, que vão para o papel, ressuscitar as cinzas de algum sonho; ou miuçalha de coisa que viveu latentemente dentro dele, do sonho. E lembrar, meu caro Sir Lo Blanc, é desdobrar-se em outros eus, aqueles que dormitam acordados no labirinto dos nossos íntimos. Fernando Pessoa e Franz Kafka são mestres nesse assunto, adoram um imbróglio psicológico na trama de seus escritos. Eu creio em Deus, mas não na morte. Tampouco disponho de sapiência teológica. Amo os textos do bispo de Hipona, o africano Santo Agostinho. Mas amo também Teilhard de Chardin. E penso que, em caso de existência da alma, ela, ao desprender-se da matéria, vai por aí vagando, de carona, no corpo de alguma borboleta, até que, de repente, se transforma num cisquinho de nada, faulha até sumir-se de vez no cosmos. Gostou, seu pé-de-macaco?
– Hum, a ir por esse caminho, vai enlouquecer até o pobre do Nosso Senhor Jesus Cristo. Daqui a pouco você vai me falar também que discorda do mestre ensaísta literário americano Harold Bloom, ao asseverar que Hamlet estaria disputando o seu brilho intelectual carismático, com o do bíblico rei Davi e de Cristo. É vero?