| A fumarada dos loucos GABRIEL NASCENTE
Ah, não me lembro! E se me lembro, é blefe. Falácia não
será. Ó meu pio leitor! E lembrar do que não me lembro, me será para desde sempre,
não esquecer dos esquecidos de mim, tão longe a cada dia; que lembrar é compungir-se,
recalcitrar, torcer a memória e, de olhos fixos, escancaradamente arregalados, para o
passado, onde tudo foi aurora e treva, prólogo de feto, proêmio de toda a luz da vida?
Pois então que, eu vim de lá. E viver é perder o jogo? Mas como? Se de mim safar-me,
outro por mim não me absolvirá do labirinto dos meus erros, ao místico
estilo santagostiniano. Se a cabeça, ó, atordoada, agora preocupa com outras coisas; e o
texto insiste, persiste, teimosamente obstinado: nascer para falar. E todos sabem. Sou um
servo da poesia, que é a casa da minha alma. E canto, avergoado, detonando sobretudo as
farpas do meu verbo contra os amaríssimos frutos da mote, engendrados pelas serpes da
treva.
Daí pra frente o Luobaldo me pediu a palavra e deu um baita
de um resmundo: Diabo! O barulho dos automóveis, nas ruas, tem me enervado
continuamente, em meio a buzinaços, ronco de motores, freadas estúpidas e alarmas de
ambulâncias, por conta dos cavalos ao volante, não me deixando ouvir o
melodioso canto da fogo-apagou, muito menos o gorjeio da pobre juriti, tão merencória em
seus suspiros de ofegante nostalgia. Que coisa horríssona é uma cidade, com os
comparticipantes de sua loucura. E nós dentro dela feito insetos na garrafa. É isso aí,
seu ameba!
Que desvairio é este? Sossega, língua de acúleo,
alma de enfant terrible. Eu e você, o nós de cada um, estamos enlanguescidos de tudo
isso, da fumarada dos loucos dentro da cidade. Retruquei o Luobaldo, pessimista nos
recônditos do seu íntimo. Ateu disfarçado. Filho da puta. E veja só a conversa que ele
me trouxe, depois que pediu licença à namorada para ir ao mictório, em plena sessão
cinematográfica; e, de lá, atravessou a porta do cinema, e escafedeu-se na tarde, sem se
dar conta de que estava em companhia da gata-musa dos seus sonhos. Eita cabeça desmiolada
a do Luobaldo! Esquecer a namorada no cinema, isso é lá coisa de homem. Não. É de
lobisomem. Então ele me disse:
Há mais de 20 anos que eu não vejo o mar. E estou
saudoso do espumante marulhar das ondas.
E eu tenho alguma coisa com isso?
Não. Não. Tudo que penso é arremesso de palavras,
que vão para o papel, ressuscitar as cinzas de algum sonho; ou miuçalha de coisa que
viveu latentemente dentro dele, do sonho. E lembrar, meu caro Sir Lo Blanc, é
desdobrar-se em outros eus, aqueles que dormitam acordados no labirinto dos nossos
íntimos. Fernando Pessoa e Franz Kafka são mestres nesse assunto, adoram um imbróglio
psicológico na trama de seus escritos. Eu creio em Deus, mas não na morte. Tampouco
disponho de sapiência teológica. Amo os textos do bispo de Hipona, o africano Santo
Agostinho. Mas amo também Teilhard de Chardin. E penso que, em caso de existência da
alma, ela, ao desprender-se da matéria, vai por aí vagando, de carona, no corpo de
alguma borboleta, até que, de repente, se transforma num cisquinho de nada, faulha até
sumir-se de vez no cosmos. Gostou, seu pé-de-macaco?
Hum, a ir por esse caminho, vai enlouquecer até o pobre do Nosso Senhor Jesus
Cristo. Daqui a pouco você vai me falar também que discorda do mestre ensaísta
literário americano Harold Bloom, ao asseverar que Hamlet estaria disputando o seu brilho
intelectual carismático, com o do bíblico rei Davi e de Cristo. É vero? |